Em 2009, o papa Bento XVI publicou a encíclica Caritas in Veritate - A Caridade na Verdade. Um documento que aprofunda a doutrina Social da Igreja, em que o Santo Padre analisa os princípios que devem nortear a busca do desenvolvimento dos povos.
Em março de 1967, o papa Paulo VI apresentou ao mundo a importante carta encíclica Populorum Progressio - O Progresso dos Povos. O ideal apontado é o desenvolvimento integral da pessoa. No documento, o papa defende um humanismo aberto ao Absoluto, a liberdade, a civilização do amor. Cunhou a expressão: “O desenvolvimento é o novo nome da paz”. Diante da explosão da interdependência mundial, já conhecida mundialmente por globalização e da crise fi nanceira mundial, Bento XVI retoma a temática, ao apresentar novamente uma reflexão acerca da Doutrina Social da Igreja, atualizandoa para os tempos de hoje. Em 7 de julho de 2009, publicou a encíclica Caritas in Veritate - A Caridade na Verdade.
Trata-se da primeira encíclica social do

atual papa, dando continuidade a uma tradição consolidada pelos seus predecessores que, há mais de 100 anos, enriquecem a Doutrina Social da Igreja com importantes tomadas de posição do Magistério pontifício diante das questões sociais em contínua evolução. A encíclica foi anunciada em 2008, quando ainda a crise econômica e fi nanceira mundial não tinha aparecido de maneira tão forte. Com a sua publicação, suas refl exões já levam em conta uma das mais graves crises dos tempos modernos. Bento XVI vai a uma questão de princípios: para onde deve levar o progresso humano? Quais princípios devem nortear a busca do desenvolvimento dos povos, para que seja verdadeiro e bom, ou seja, traga efeitos bons?
“A presente crise econômica nos obriga a repensar os rumos da economia”, afi rma o papa. Enquanto cresce a riqueza econômica, em termos absolutos, aumentam as diferenças sociais locais e entre países ricos e pobres; criaram-se demasiados mecanismos de proteção e garantia dos interesses de quem já tem muito, tanto no campo econômico e comercial, como no campo do conhecimento e da técnica, difiicultando o acesso a esses benefícios para quem não participa do grupo dos privilegiados. O papa manifesta o desejo de que as escolhas econômicas tenham como objetivo prioritário o acesso de todos ao trabalho digno e chama a atenção para os riscos da ação econômica voltada para o máximo de lucro no menor tempo possível: quem paga a conta são os trabalhadores e os pobres, sem falar das consequências desastrosas para o equilíbrio ambiental.
Caritas in veritate compartilha a convicção profunda da Doutrina Social da Igreja sobre a possibilidade de que a liberdade humana repare a história. Bento XVI centraliza seu discurso na dinâmica econômica: “A atividade econômica não pode resolver todos os problemas sociais, ampliando a lógica mercantil. Deve estar ordenada à consecução do bem comum, que é responsabilidade principalmente da comunidade política. Portanto, deve-se ter presente que separar a gestão econômica, à qual corresponderia unicamente produzir riqueza, da ação política, que teria o papel de conseguir a justiça mediante a redistribuição, é causa de graves desequilíbrios”(nº 36).
O papa lembra que são urgentes as mudanças políticas em nível internacional, como exigência de uma caridade autêntica. “Para governar a economia mundial, para sanear as economias afetadas pela crise, para prevenir sua deterioração e maiores desequilíbrios consequentes, para conseguir um oportuno de desarmamento integral, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e regular os fl uxos migratórios, urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial” (nº 67). Bento XVI conclui dizendo que “o saber deve ser ‘temperado’ com o ‘sal’ da caridade. Pois a ação é cega sem o saber, e o saber é estéril sem o amor” (nº 30). Esta bela e importante encíclica deve ser aprofundada por quem se preocupa com a paz e com a solidariedade entre os povos.